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"Histórias, Lendas  e   Contos
 do meu Chão"

 

Livro de José Ramiro Moreira
contacto

 

 

 
     
 notícias na imprensa regional
sobre o lançamento do livro:

 

'Livro com a dimensão de um povo'
A. Ventura
in 'A Comarca de Arganil'

 

'uma esplêndida monografia'
Francisco Antunes

in 'Folha do Centro'

 

'Chão Sobral em livro'
J. Vasconcelos
in 'Jornal de Arganil'

 

'A propósito do livro de José Ramiro'
Francisco Antunes
in
'A Comarca de Arganil'

 

 

histórias para a 3ª edição:

Quando nevava no Avelar

A pilheira da cozinha

Os Alunos do Padre Nogueira

A Mulher da praga

Os Velhos do Colcurinho

O chapeleiro espanhol

A Festa de Santo Antão

A casa da Genoveva

O pregão do homem do sarro

Versos que os cegos cantavam

Uma primeira Romaria que vi

O fumeiro

Cavacas de Aldeia

José Alves Capela e Silva

O Poço da Saúde

Os últimos Dinossauros

Um enterro para Aldeia

O primeiro "Castanheira"

+ uma "galga"

Os meus avós maternos

O Castanheiro da Botica

Homenagem aos castanheiros

Valores do Colcurinho

A discutir política

O Primeiro Médico

A última seara de centeio

 

livro editado pelo Município de
Oliveira do Hospital

excertos:

apresentação do autor

agradecimentos

histórias

lendas

contos

 

imagens

'fotos da apresentação do livro
na Casa da Cultura
em Oliveira do Hospital'

 

"imagens de Chão Sobral
e música para a sessão
de apresentação do livro"

apresentação .pps

 

 

 

 

 

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 Edição de João Gonçalves

c h a o s o b r a l @ y a h o o . c o m

 

2003-08  |  c h a o s o b r a l . o r g

Sítio alojado em TugaNET.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apresentação do Autor

 

 

Da esquerda para a direita: Isabel, José, Eduarda, Conceição, Casimira e Ilda (Foto de Irene do Couto, 2007).

 

Sou um fruto da serra, que nasceu em Chão Sobral em 1934. Meus pais, Serafim Moreira e Ester da Conceição, deram-me o nome de José Ramiro e cinco irmãs. Mandaram-me à escola do Vale de Maceira, mas só até à 3ª classe… Cresci e vivi na minha terra até ao serviço militar que cumpri na Amadora e Carregueira, onde fiz a 4ª classe. Trabalhei na agricultura e Serviços Florestais vários anos, dois na indústria têxtil em Coimbra e quatro em Lisboa, como porteiro do Colégio de Clenardo, (onde tirei muito pó à biblioteca!)

 

Ingressei na Guarda Florestal, o meu sonho de menino, sendo colocado em Malhada Chã – Piódão, onde estive quinze anos. Aí contactei com Miguel Torga, que ia àquelas paragens às perdizes e se abrigava na minha casa de guarda-florestal.

 

 

Casei com Maria da Anunciação, tivemos três filhas e um filho, e pelos seus estudos pedi transferência para a Mata do Choupal em Coimbra. Nesta estive nove anos e aí apanhei a paixão por árvores ornamentais. Passei para a sede dos Florestais de Coimbra, estando na central telefónica até me aposentar. Nesse período, faleceu-me a esposa com 49 anos e já morava em casa própria no Vale das Flores. Neste local dei largas à minha paixão, pois plantei no jardim da urbanização 200 árvores e arbustos ornamentais de oitenta espécies! Faltava-me só escrever um livro, sonho que não tinha.

Na foto à direita: Serafim Moreira e José Ramiro

 

Angustiado com a falta da companheira e por um amor não correspondido, que guardava da juventude, comecei a escrever em versos histórias do meu Chão Sobral. Histórias que me encantavam por os locais e personagens me serem familiares. Este fascínio avivou-me a memória e criou-me o desejo de contar tudo. Os versos eram a maneira fácil de construir a história, mais que em prosa, mas a sua pobreza desgosta-me. Só me alegra deixar escrito tudo, o que sei e ouvi contar.

 

 

 

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Agradecimentos

 

Desejo expressar a minha gratidão aos que me contaram muito do que contém este livro;

 

Aos que me estimularam, apoiaram e corrigiram;

 

Aos que na rádio e imprensa divulgaram algumas histórias;

 

Em particular, aos que toleram factos aqui referidos que não tenha sabido purificar.

 

Para a edição deste livro cumpre-me agradecer:

À União Progressiva de Chão Sobral, na pessoa do seu Presidente, meu sobrinho João Pedro Gonçalves, que vinha mostrando na Internet o meu trabalho e agora se propôs pedir, e coordenar o texto, para ser editado;

 

A todas as pessoas que gentilmente cederam as fotografias;

 

À Junta de Freguesia de Aldeia das Dez na pessoa da sua Presidente, D. Paula Frade, Grande Mãe, até nas letras!

 

À Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, da Presidência do Senhor Professor Mário Alves, o Amigo de Chão Sobral, e na pessoa do Senhor Vereador da Cultura, Professor José Carlos Mendes, nosso Bom Vizinho, que se dignaram mandar que se editasse este meu trabalho.

 

José Ramiro

 

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HISTÓRIAS
   

O Zabumba

Casais nossos vizinhos

Do Colcurinho para Lourosa

As primeiras batatas

Origem do nome Chão Sobral

Origem da casa deste lado - no Colcurinho

A grande sequeira

A capela de São Lourenço

Os Franceses e o Avelar

Teresa Moreira do Avelar

O Caca e o Caeiros

A ceifa

No Tribunal de Penalva

A Fé da gente da Vide

Milagre de São Sebastião - em Alvôco

O Coimeiro

O grande habilidoso

O primeiro fogo

O lençol de sinal

Primeiro papagaio de papel

Os Velhos do Colcurinho:

O caçador de lobos - I

O caçador de lobos -II

III - O bom lavrador

IV - O queijo fresco

V - A azeitona

VI - Os quadros

VII - E o vento

VIII - Quatro cinco talhadas

IX - As cigarrilhas

X - As armas dos Varões assinalados

O último Bufo Real

As cucas

Mentiras de mãe

O pau da Missa

O diabo feito cabra

Sete currais de cabras

Aquele diabo do Zé Trindade

A mulher que foi ao pipo

A greve das andorinhas

Ditos de Saber Antigo

A primeira obra pública

O pastor que fazia parar

O "Tafula"

Os cruzeiros partidos

Bruxas

As melancias

O crucifixo pelo chão

A Guerra do Carvoeiros:

I - Zé Moreira na cadeia

II - A nossa Maria da Fonte

III - Os figos

IV - O único tiro

V - Senhora das Preces, se escapar!

VI - O fim - E uma avaliação nova

Ladrão duas vezes inocente

A casa antiga do meu Chão

Dois rapazes em Lisboa

O santito

As "Almas"

A pneumónica

A licença do porco

Uma lição para sempre

O último lobo

O jogador do pau

Tradições do meu Chão:

Fogueiras de São João

A fogueira do Natal

Da nossa cozinha:

O bucho

Os coscoréis

Os últimos romeiros a pé

O primeiro automóvel

O último campo de linho

A floresta

O fardadito

O último rebanho

O bom Samaritano

Os Homens de quem se fala:

O Ti Zé Mendes Caetano

O Ti Manel Alves

O Ti Abel

O Ti Manel Fontes do Tapado

O Ti António Miguel

Como chamavam o gado

O último carvoeiro

A música do faz de conta

Minha primeira tiborna

Valores do traje antigo - o gabão

Jogos Tradicionais - a chona

Os últimos pobres de pedir

A última malha

Ouro!

A estrada:

I - Velhos caminhos

II - Meu povo em cordão

III - Primeiros carros

O lagar velho do meu Chão

Nomes de fragas

Os últimos moradores

Castas de Castanheiros

Museu do Colcurinho

A Escola

As Fontes

A Procissão

A nódoa em Vale de Maceira

Os Baldios

A Electricidade

Homenagem aos combatentes

Um sonho que é história

A Senhora Laura

Letra de cantares antigos

Uma parcela do meu Chão

O muro

No miradouro do Santo

A Via e a Regueifa

Inscrição HISTÓRIA e tradição

 

 

   

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histórias

 

ORIGEM DO NOME CHÃO SOBRAL

 

Primeiras Casas e Moradores

 

Vou falar de guerras velhas,

Dos Santos e do Diabo;

Mas nesta falo do homem

Que veio do Sobral Magro.

 

Morava no Colcurinho,

Cá, única povoação.

Perto num campo vizinho,

Tinha o homem um chão.

 

Ganha alcunha entretanto.

Ele não levava a mal!

Diziam que o seu campo

Era o chão do Sobral.

 

Minha terra ia nascer.

O homem faz lá juntinho

A casa para viver,

E deixou o Colcurinho.

 

Encostam outras a ela,

Todas iguais à primeira,

Com postigo e janela,

No lascado a trapeira. (1)

 

E loja, curral de gado.

Igual a casa do rico,

Com cabras, bois e criado!

Sete potes e um penico!

 

Tinha oito moradores,

Quando D. João III

Mandou recenseadores

Contar o país inteiro. (2)

 

No registo de então

Ficou Casa do Sobral,

Esta nova povoação, (3)

Entre o chão e o vale.

 

Com gente a aumentar,

No chão do Sobral, ao pé,

Fazem casas para morar,

E hoje, Chão Sobral é!

 

Foi concelho de Penalva. (4)

Isso não deu simpatia,

Por ser concelho de Avô,

A sede da freguesia. (5)

 

Não faz pessoas amadas

O pisar outros caminhos.

Mas essas águas passadas

Não fazem moer moinhos!...

 

 

(1) Lascado - cobertura da casa em lousa.

Trapeira - óculo numa lousa para dar luz à cozinha.

(2) A contagem foi em 1527.

(3) Era à ladeira do Porto.

(4) Concelho de Penalva do Alva, foi integrado em 1853 no de Sandomil, e em 1855 no de Oliveira do Hospital.

(5) A freguesia de Aldeia das Dez, criada em 1543.

 

 

histórias

 

 

 

 

histórias

 

MILAGRE DE SÃO SEBASTIÃO

 

Em Alvôco das Várzeas

 

Eram um jardim, em Alvôco,

As várzeas e os quintais!

Vem nuvem de gafanhotos (1)

E poisou nos milheirais!

 

Toca o sino a rebate,

Sai a população inteira.

Não ficou o alfaiate,

Nem ficou a tecedeira!

 

Sem os venenos de agora,

Vão com ramos a enxotar.

A praga não ia embora,

Só a faziam mudar.

 

Com o milho a ser roído,

E de ver ficar só veios,

O povo ficou perdido...

Já previa tempos feios.

 

E já em grande aflição,

Vem a esperança que resta:

Evocar São Sebastião,

E prometer-lhe uma festa.

 

Põem dois mastros de pinho

A apontar a sua esperança;

Em cada topo, um arquinho, (2)

A propor ao Céu aliança.

 

São Sebastião aceitou

O contrato, sem desafio.

Logo a praga levantou

E foi afogar-se no rio!

 

Ó milagre sem igual!

Já nem a água se via!

Também alegrou Chão Sobral,

E a festa, foi romaria.

 

 

(1) Em 1851 houve pragas no país.

(2) Com fitas de cores.

 

 

histórias

 

 

 

 

 

histórias

 

A CASA ANTIGA DO MEU CHÃO

 

Casa quadrada, em pedra,

Com pé direito baixinho.

O quarto canto redondo, (1)

A facilitar um caminho.

 

Duas águas no lascado;

Mas com empena suave.

Na frente, janela ao lado,

Fora do peso da trave.

 

Simples e curto beirado;

Umas pedras a calcar.

Dois craveiros à janela,

Dos lados a enfeitar.

 

Dos lados, num é a porta.

Cabem pessoas baixinhas.

É debaixo da escada

O poleiro das galinhas.

 

Sobre a porta com postigo, (2)

Lascado de cobertura.

Pesa quase meio quilo,

A chave da fechadura:

 

Porta da loja, ao canto.

Padieira de madeira.

Dentro, pipos e a arca,

A dorna e salgadeira.

 

Atrás, pátio e curral.

É o das cabras, por certo!

O canto de cheirar mal,

E o forno num coberto.

 

A loja com a quintã,

Não a convém destrancar.

Tem, com licença, o porco,

Pode ir pisar o linhar!

 

É casa de boa gente,

Ninguém se faça rogado.

O dono diz: Entre!...

E entramos no sobrado.

 

Duas paredes caiadas,

Uma tem uma copeira. (3)

Mas dois lados da sala,

São divisão em madeira.

 

E tem pintado em azul,

Num que dentro é caiado,

Um pote com alcachofras,

Quase a encher esse lado. (4)

 

É sem vidros a janela.

Portinhas tapam o vento.

De cada lado do vão,

Um poialzito de assento.

 

Uma mesa rectangular.

Cadeiras, uma pobreza.

O banco para se sentar,

Do comprimento da mesa.

 

No lavatório ao canto,

Jarro, toalha e bacia.

Forro, barrotes à vista.

No sótão, só velharia.

 

Portas a dar para a sala,

Dois quartitos apertados.

Só ao tamanho da cama,

Escuritos, mas forrados.

 

 Vamos entrar na cozinha!

A luz vem da trapeira. (5)

Cuidado com o degrau,

Que é funda, a lareira!

 

Ela não tem chaminé,

Está tudo defumado.

Ali, o canto da lenha,

Panelas, do outro lado.

 

A panela nas cadeias, (6)

Penduradas no caniço. (7)

Nele secam as castanhas,

Por baixo, o bom chouriço.

 

Enterrada na parede,

Uma panela de copeira.

Para meter os novelos,

Ao serão, a fiandeira.

 

Cântaro na cantareira.

Pratos para se comer.

Engonçada na parede,

Esta mesa de descer... (8)

 

Os sinais de casa farta

Vejam-nos nesta salinha.

São os potes e a arca,

E o cortiço da farinha.

 

Dentro da tampa da arca,

Os sinais das alegrias!

Toda colada de imagens,

Dos santos das romarias!

 

Fica para a outra vez,

Tudo mais que me recorda.

A candeia de azeite,

E o podão e a corda.

 

 

(1) Havia muitas assim.

(2) E o buraco do gato.

(3) Cavidade na parede a servir de prateleira.

(4) Vi na casa do Ti’ Albano e vestígios noutra.

(5) Óculo numa lousa.

(6) Cadeado de ferro.

(7) Um forro em ripas.

(8) Só com uma perna.

 

 

histórias

 

 

 

 

 

histórias

 

O SANTITO

 

Passava para o Parente,

A mandar fazer os tamancos,

Certo homem da Barroja, (1)

Que não era nada de Santos…

 

Se era ou não, tanto faz.

Passava é revoltado.

Lá com a festa do São Braz,

Ficava o milho esmagado.

 

Eram lá os diabretes,

Da miudagem que corria

Atrás das canas dos foguetes.

Então o homem dizia:

 

Eles esmagam o milho!

Eles partem botelhas! (2)

E não há lá um pai,

Que lhes puxe as orelhas!

 

Eu já disse, e digo agora:

Se Deus ou Diabo, não vê tal sarilho,

Se não tira o Santito de lá p’ra fora,

Não fica lá uma cana de milho!!

 

 

(1) Barroja – Pomares.

(2) Abóboras.

 

 

histórias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

histórias

 

O BOM SAMARITANO

 

Contado Por Minha Mãe

 

Minha mãe vinha de Aldeia,

E calhou a vir com ela

O Moreira do Avelar,

Que chamavam o Tadela.