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 TRINTA E CINCO

É CONSIGO


Murmura-lhe ao ouvido uma voz mansa,

Quem nunca temeu, não tem esperança;

E quem nunca duvidou do seu estado,

Talvez o faça demasiado tarde, demasiado.
William Cowper, «Truth»


Há um aspecto que um director-geral não se pode dar ao luxo de desprezar — a barafunda de compradores e vendedores a que se chama mercado. Creio firmemente que todos os esforços dos governos e das empresas não servirão para nada se o cidadão e consumidor não tomar a iniciativa — e, em matéria de alterações climáticas, o consumidor está numa posição muito vantajosa.


Se ainda estivéssemos a enfrentar os CFC, os consumidores não seriam capazes de gerar um produto alternativo. Na verdade, independentemente da vigilância que exercessem, é provável que, na ausência de um acordo internacional como o Protocolo de Montreal, comprassem CFC escondidos em produtos como veículos a motor ou frigoríficos. No que toca ao CO2, no entanto, a tecnologia pode libertar quase todos os lares do planeta. Por outras palavras, não temos de aguardar que o governo actue. Podemos ser nós a actuar.


Em poucos meses, em vez dos cinquenta anos autorizados por alguns governos, o leitor pode realizar a redução de 70 por cento nas emissões necessária à estabilização do clima da Terra. Só terá de efectuar algumas mudanças na sua vida pessoal e nenhuma delas lhe exige grandes sacrifícios.

Compreender o modo como usa a electricidade constitui a arma mais poderosa do seu arsenal, porque lhe permite tomar decisões eficazes no sentido de reduzir as suas emissões pessoais de CO2. Para começar, vá buscar a sua conta de electricidade e analise-a atentamente. É mais elevada do que era no mesmo mês do ano passado? Se sim, porquê? Um telefonema para o seu fornecedor ou um pedido de esclarecimento por correio electrónico podem ajudá-lo a clarificar a situação.


Já que está em contacto com ele, fale-lhe das opções «verdes» (em que os fornecedores garantem que uma parte da energia fornecida provém de fontes renováveis). Apesar de poderem custar apenas um dólar por semana, essas opções são altamente eficazes em matéria de redução de emissões. Se o seu fornecedor não lhe oferece uma opção desse tipo, livre-se dele e contacte um rival. Habitualmente, para mudar de fornecedor, basta uma chamada telefónica, e a mudança não costuma envolver interrupção do abastecimento ou problemas com contas. Contudo, se a sua área ainda é controlada por um monopólio, terá de fazer pressão sobre as autoridades para que se crie um mercado livre. Então, terá a possibilidade de reduzir para zero as suas emissões domésticas se optar pela energia «verde». E tudo com um simples telefonema.


Se deseja actuar de uma forma mais decisiva, o melhor é, para a maioria das pessoas, começar pela água quente. No mundo desenvolvido, cerca de um terço das emissões de CO2 resultam do consumo doméstico, e um terço das contas de energia típicas de um lar é gasto no aquecimento da água — o que é uma loucura, porque o Sol aquece a sua água gratuitamente se tiver um dispositivo adequado. É necessário um investimento inicial, mas os benefícios são tantos que vale a pena contrair um empréstimo para o efeito, pois, em climas soalheiros como a Califórnia ou o Sul da Europa, o sistema fica pago em dois ou três anos, e, como o equipamento costuma ter uma garantia de dez anos, isso significa que pode dispor de sete a oito anos, pelo menos, de água quente grátis. Mesmo em regiões enevoadas como a Alemanha ou o Reino Unido, terá muitos anos de água quente sem ter de pagar.


Se pretende reduzir ainda mais o impacto das suas emissões, comece pelos grandes consumidores de electricidade — o ar condicionado, o aquecimento e o frigorífico. Se está a pensar em instalar equipamento desse tipo, deve procurar o modelo mais eficiente em matéria de energia. Um bom princípio é escolher o mais pequeno que se adeque às suas necessidades médias e ter em consideração as alternativas: pode ser mais barato isolar do que comprar um enorme sistema de aquecimento ou de arrefecimento. Talvez seja difícil convencer os seus filhos da necessidade de desligar os aparelhos eléctricos quando já não precisam deles. Uma maneira de os ensinar consiste em a família analisar em conjunto a conta de electricidade e estabelecer uma meta para reduzir o consumo. Quando a meta é atingida, distribua as poupanças pelos seus filhos.


Senti-me tão indignado com a irresponsabilidade dos grandes consumidores de carvão que decidi produzir a minha própria electricidade, decisão que veio a revelar-se uma das coisas que mais satisfação me deu na vida. Para um consumo médio, os painéis solares são a melhor forma de o fazer. Optei por doze painéis de 80 watts que, na Austrália, geram energia suficiente para uma casa. No entanto, para sobreviver com essa quantidade, a minha família controla o consumo de energia e cozinhamos com gás. A minha forma física é melhor do que era, porque, para fazer e consertar as coisas, uso ferramentas manuais em vez de eléctricas. Os painéis solares têm uma garantia de vinte e cinco anos (e é vulgar durarem quarenta). Como o custo da electricidade está a subir, encaro-os como uma espécie de poupança para a reforma, pois continuarei a usufruir da energia grátis que fornecem muito depois de me reformar.


A vila de Schoenau, na Alemanha, constitui um exemplo diferente de acção directa. Alguns dos seus habitantes ficaram tão alarmados com o desastre de Chernobil que decidiram fazer alguma coisa para reduzir a dependência do seu país da energia nuclear. Tudo começou com um grupo de dez pais que concediam prémios a quem poupasse energia. O êxito da iniciativa foi tal que se formou um grupo de cidadãos decidido a combater a KWR, o monopólio que os abastecia, retirando-lhe o controlo sobre o fornecimento de electricidade à povoação.


Realizaram um estudo independente e juntaram dois milhões de marcos para instalar o seu próprio sistema «verde». Acabaram por conseguir juntar mais de 6,5 milhões de marcos — o suficiente para adquirir as instalações e equipamento da KWR — e, neste momento, a vila não só gere o seu próprio abastecimento como também uma empresa de consultoria bem-sucedida, que emite pareceres sobre o modo de tornar «verde» a rede eléctrica do país. O abastecimento eléctrico de Schoenau é cada ano mais «verde», e até os grandes consumidores de electricidade, como uma fábrica de reciclagem de plásticos situada na vila, estão satisfeitos com o resultado.


Neste momento, a maioria de nós não está em condições de deixar de utilizar combustíveis fósseis no transporte, mas pode reduzir muito o consumo. Andar a pé sempre que possível é uma maneira muito eficaz, tal como utilizar os transportes públicos. Os híbridos são duas vezes mais eficientes, em termos de combustível, do que um carro vulgar com o mesmo tamanho, e trocar o seu veículo com tracção às quatro rodas ou o seu SUV por um híbrido de dimensões médias representa uma redução de 70 por cento nas emissões do seu transporte pessoal, de uma só vez.


Um bom conselho para as pessoas que não podem ou não querem conduzir um híbrido é comprar o veículo mais pequeno que se adeque às suas necessidades habituais. É sempre possível alugar um maior nas raras ocasiões em que tal se revele necessário. Se investiu na energia solar, poderá comprar um veículo de ar comprimido dentro de uns anos, virando de uma vez as costas a todas essas contas de electricidade e de gasolina.


Mau grado o que se pensa, os empregados têm um peso considerável no local de trabalho. Se pretende sensibilizá-lo mais para a questão dos gases de estufa, solicite ao seu empregador uma auditoria de energia. Se pode reduzir as suas emissões em 70 por cento, a empresa onde trabalha também pode fazer o mesmo, poupando, a médio prazo, não só dinheiro mas também o ambiente. Além disso, como a sociedade precisa desesperadamente de quem a defenda (de pessoas que actuem e mostrem o que pode e deve fazer-se), atitudes públicas desse tipo terão consequências que excederão em muito o seu impacto local.


Quando ler do princípio ao fim a lista de acções para combater as alterações climáticas, talvez não acredite que esses passos possam ter um impacto tão profundo. Porém, não é só o clima global que está a aproximar-se de um ponto de viragem; a nossa economia também, pois o sector da energia está prestes a passar por uma situação idêntica à que a Internet trouxe aos media: uma era em que produtos anteriormente distintos passam a competir uns com os outros e com o indivíduo.


Se um número suficiente de pessoas adquirir energia «verde», painéis solares, sistemas solares de aquecimento de água e veículos híbridos, o custo desses bens diminuirá em flecha. Uma situação dessas estimulará a venda de mais painéis e geradores eólicos, e as tecnologias renováveis não tardarão a gerar o grosso da energia doméstica. A pressão que uma situação destas exercerá sobre as indústrias, somada à pressão proveniente de Quioto, levará as empresas sedentas de energia a maximizar a eficiência e a recorrer a sistemas limpos de produção de energia, o que tornará as energias renováveis ainda mais acessíveis. Em consequência, o mundo em desenvolvimento (incluindo a China e a índia) poderá recorrer à energia limpa em lugar do carvão infecto. Com uma pequena ajuda do leitor, dada agora, é possível que os gigantes asiáticos em desenvolvimento consigam evitar a catástrofe do carbono em que nós, mundo industrializado, nos atolámos tão profundamente.


Muita coisa pode correr mal neste plano destinado a salvaguardar o clima. Os grandes consumidores de energia poderão infiltrar-se ainda mais nos governos e travar o passo às energias renováveis. A nossa actuação também poderá ser lenta de mais, permitindo que países como a China ou a Índia invistam na produção de energia baseada em combustíveis fósseis antes de o preço das energias renováveis baixar. Ou talvez o ritmo das alterações climáticas seja tão rápido que tenhamos de retirar CO2 da atmosfera.


Como estes desafios sugerem, somos a geração fadada a viver na mais interessante das épocas, pois passámos a ser os fabricantes do tempo, e o futuro da biodiversidade e da civilização depende das nossas acções.


Esforcei-me ao máximo por conceber um manual sobre como utilizar o termóstato da Terra. Agora, é consigo.

 

 

 

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