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 VINTE E NOVE

BRILHANTE COMO A LUZ DO SOL, LEVE COMO O VENTO


Quando começamos a analisar alterações catastróficas, encetamos um debate completamente novo. Se não sabemos de que modo as actividades humanas afectarão a fina camada de actividades de apoio à vida que deram origem à civilização humana e a alimentam, e se não somos capazes de avaliar seriamente de que modo as possíveis alterações geofísicas afectarão a civilização e o mundo que nos cerca (...), não deveríamos ser ultraconservadores e inclinar-nos para a preservação do mundo natural em detrimento do crescimento e desenvolvimento económicos? Atrevemo-nos a dar primazia ao melhoramento dos homens em detrimento da preservação dos sistemas naturais e a confiar que o engenho humano nos salvará se a Natureza nos distribuir cartas realmente más?
William Nordhaus, Climate Change, 1996


Na nossa guerra contra as alterações climáticas, um dos aspectos fundamentais é decidir se devemos centrar os nossos esforços nos transportes ou no abastecimento de electricidade. Muitas pessoas diriam que devíamos fazer as duas coisas, e eu até estaria de acordo se dispuséssemos de tempo e recursos para tal. Contudo, no que toca ao esforço realmente grande para pôr cobro às emissões, a descarbonização da rede eléctrica ganha a palma aos transportes, porque, uma vez concretizada, é possível usar a energia renovável produzida dessa maneira para descarbonizar os transportes.


Os investigadores Steven Pacala e Robert Socolow, da Universidade de Princeton, averiguaram se o mundo possui as tecnologias necessárias à manutenção de uma rede eléctrica com a extensão, dimensões e fiabilidade da actual, realizando, ao mesmo tempo, reduções substanciais nas emissões de CO2, tendo identificado quinze tipos básicos de tecnologias — desde a sequestração às energias eólica, solar e nuclear — passíveis de desempenhar um papel vital. Nem todas estas tecnologias são necessárias, mas, se queremos controlar as emissões de carbono pelo menos nos próximos cinquenta anos, teremos de utilizar, no mínimo, metade. Socolow resumiu o seu trabalho afirmando: «Desacredita a ideia de que é necessário investigar durante muito tempo antes de nos lançarmos ao trabalho». Os muitos exemplos de governos e empresas em todo o mundo que reduziram radicalmente as emissões (mais de 70 por cento, no caso de alguns municípios britânicos), usufruindo, ao mesmo tempo, de um forte crescimento económico mostram que Socolow tem razão: está a ser rapidamente desmascarada a campanha de intimidação das grandes empresas de carvão e de petróleo segundo a qual uma actuação deste tipo é demasiado difícil e dispendiosa. As tecnologias dividem-se em dois grupos: as que, de momento, fornecem energia de modo intermitente e as que podem fornecer um fluxo contínuo de energia em quaisquer circunstâncias. Entre as fontes de energia intermitente, a mais amadurecida e economicamente competitiva é a eólica, e nenhum país a desenvolveu com tanto vigor como a Dinamarca, a pátria desta indústria moderna.


Quando os Dinamarqueses decidiram apoiar a energia eólica, o custo da electricidade produzida dessa maneira era muitas vezes superior à gerada pelos combustíveis fósseis. O governo dinamarquês, porém, foi capaz de descortinar o seu potencial e apoiou o sector até os custos baixarem. Presentemente, a Dinamarca ocupa o primeiro lugar a nível mundial tanto na produção de energia eólica como na construção de turbinas, e essa fonte de energia assegura 21 por cento da electricidade do país. Um dos aspectos notáveis acerca do modo como se desenvolveu a energia eólica reside no facto de 85 por cento da sua capacidade estar nas mãos de indivíduos ou cooperativas, podendo dizer-se, pois, que o poder está literalmente nas mãos do povo.


Há vários países onde a energia eólica já é mais barata do que a electricidade gerada a partir dos combustíveis fósseis, facto que ajuda a explicar a fenomenal taxa de crescimento de 22 por cento ao ano que se verifica no sector. Tem-se falado na possibilidade de a energia eólica satisfazer 20 por cento das necessidades energéticas dos Estados Unidos, e a sua dinâmica é tal que é possível que ainda venha a concretizar-se o objectivo do governo de Clinton de, em 2020, 5 por cento da electricidade do país provir do vento. Nos últimos anos, o preço unitário da energia eólica deverá diminuir entre 20 a 30 por cento, aumentando ainda mais a sua rendibilidade.


A energia eólica, no entanto, costuma ser associada a uma importante desvantagem: como o vento nem sempre sopra, ela não é de fiar. Trata-se de um aspecto de uma realidade mais complexa, porque, embora o vento não sopre no mesmo local com uma força constante, se pensarmos em termos de uma região, é praticamente certo que há vento a soprar algures. Por conseguinte, quanto mais dispersas forem as turbinas eólicas, mais se assemelharão a fornecedores de carga de base, como o carvão. Esta situação implica a existência de muita redundância na energia eólica, pois, por cada turbina a trabalhar em pleno, haverá, frequentemente, um grande número delas inactivas.


No Reino Unido, uma turbina vulgar não excede, durante um ano, 28 por cento da sua capacidade. Para avaliar a importância desta desvantagem, vale a pena recordar que todas as formas de produção de energia possuem um certo grau de redundância. No Reino Unido, a energia nuclear funciona cerca de 76 por cento do tempo, as turbinas de gás 60 por cento e o carvão 50 por cento. No entanto, a elevada redundância da energia eólica é compensada de certa forma por uma maior fiabilidade: as turbinas eólicas avariam menos vezes e a sua manutenção é mais barata que a das centrais geradoras movidas a carvão. Uma proposta destinada a reduzir a redundância assenta na utilização dos excedentes da energia eólica para introduzir ar comprimido no solo, de onde pode ser retirado mais tarde para alimentar geradores. Outra é a criação de hidrogénio, que pode ser usado para alimentar células estacionárias em períodos de pouca actividade eólica.


Infelizmente, a energia eólica tem sido vítima de referências prejudiciais na imprensa, que noticia, por exemplo, que as turbinas matam pássaros e são barulhentas e feias. A verdade é que qualquer estrutura alta representa um perigo para os pássaros, e as primeiras turbinas eólicas aumentaram o risco. Possuíam uma estrutura em formato de grade que permitia aos pássaros fazerem ninhos, mas já foram substituídas por outros modelos. Além disso, os riscos devem ser ponderados: nos Estados Unidos, os gatos matam muito mais pássaros do que os parques eólicos. E se continuarmos a queimar carvão, quantos pássaros morrerão devido às alterações climáticas? Quanto à poluição sonora, é possível conversar perto de uma torre sem ter de elevar a voz, e o ruído dos novos modelos ainda é menor. No que toca à dita fealdade, gostos não se discutem. O que é mais feio: um parque eólico, uma mina de carvão ou uma central geradora? Aliás, não devemos permitir que qualquer destes assuntos decida o destino do nosso planeta.


Passemos agora a três importantes tecnologias que exploram directamente a energia solar: os sistemas solares de água quente, os dispositivos solares térmicos e as células fotovoltaicas. A água aquecida pelo sol é o método mais simples e, em muitos casos, o mais rendível de usar a energia solar para finalidades domésticas, tornando-se a melhor maneira de poupar bastante e com facilidade nas contas de electricidade da maior parte dos agregados familiares. Os sistemas solares de água quente são instalados num telhado virado a norte (no Hemisfério Norte, virado a sul) e absorvem os raios do sol que são, depois, utilizados para aquecer água. Não exigem manutenção e, para garantir que a água quente está disponível sempre que se queira, incluem um compressor a gás ou eléctrico.


Os geradores solares térmicos produzem grandes quantidades de electricidade — muito mais do que um lar poderá alguma vez usar — e funcionam por intermédio da concentração dos raios solares em pequenos colectores solares, altamente eficientes. A sua designação provém do facto de produzirem tanto electricidade como calor, calor esse que é muitas vezes usado para fins acessórios como tratamento de efluentes. O mercado dispõe presentemente de muitos modelos, que estão a tornar-se cada vez mais económicos. Espera-se que as centrais solares térmicas venham a competir com a energia cólica no fornecimento de electricidade, e, nesse aspecto, são parceiras ideais, porque, se o vento não sopra, há boas hipóteses de o sol brilhar.


Por fim, falemos da tecnologia que a maioria das pessoas considera como a verdadeira energia «solar» — as células fotovoltaicas. Gerar a nossa própria energia com células fotovoltaicas assemelha-se um pouco ao fabrico caseiro de cerveja, porque, desde que tenhamos comprado o nosso equipamento, podemos dispensar as multinacionais. É igualmente simples (a não ser que não estejamos ligados à rede eléctrica e necessitemos de usar baterias) e dispensa manutenção, pois os painéis estão cobertos por uma garantia de vinte e cinco anos, devendo durar quarenta.


Existem vários tipos de células fotovoltaicas no mercado, mas todas utilizam a luz solar. A electricidade gerada deste modo terá de ser transformada, por intermédio de um inversor, em corrente alterna com a voltagem adequada à sua área geográfica. Se está ligado à rede eléctrica, só necessita desses dois artigos e de uma tomada para gerar energia. Uma casa média necessita de cerca de 1,4 quilowatts (1400 watts) de energia e a dimensão média dos painéis é de 80 ou 160 watts. Dez dos maiores bastam, mas é surpreendente como nos tornamos mais conscientes da energia que gastamos — e, portanto, como poupamos — quando somos nós a gerá-la.


As células fotovoltaicas funcionam melhor no Verão, quando necessitamos de mais energia para o ar condicionado, o que permite aos proprietários de sistemas fotovoltaicos ganharem dinheiro: no Japão, podem vender a energia excedente à rede eléctrica por cinquenta dólares por mês, existindo esquemas semelhantes noutros quinze países. Em 2003, a energia solar era cerca de oito vezes mais cara que a convencional nos países nórdicos e quatro vezes mais na Austrália. No entanto, o custo das células fotovoltaicas está a diminuir tão rapidamente que a electricidade por elas gerada deverá tornar-se rendível em 2010.


Como é evidente, existem muitos tipos de produção de energia que não serão discutidos aqui (como as chaminés solares e a energia das marés e das ondas), havendo locais onde todas estas opções estão — ou estarão em breve — a produzir energia renovável. O que podemos aprender com o sector das energias renováveis é que não existe nenhuma panaceia mágica que nos permita descarbonizar a rede eléctrica, mas antes uma multiplicidade de tecnologias que podem ser utilizadas sempre que as condições o propiciem.
 

 

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