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 TRINTA E QUATRO

ACABOU O TEMPO


O que me tem levado a defender as crianças e a humanidade ultrajada tem sido a ideia da nossa maravilhosa atmosfera nas suas diversas relações com a vida humana e com a vida sob codas as formas (...) Que tudo se sujeite a isto (...) Não voteis em ninguém que diga «não é possível fazê-lo». Votai apenas nas pessoas que declaram «Far-se-á».
Alfred Russel Wallace, Man's Place in the Universe, 1903


Se todas as pessoas que dispõem de meios para o fazer actuarem de uma maneira concertada para libertar a sua vida de emissões de carbono atmosférico, poderemos estabilizar a criosfera e salvá-la. Poderemos salvar cerca de nove em cada dez espécies actualmente em risco, limitar a extensão dos acontecimentos climáticos extremos de modo a diminuir as perdas estimadas tanto de vidas humanas como de investimentos, e reduzir, ou quase anular, a possibilidade de ocorrência, neste século, de qualquer dos três grandes desastres previstos.


Porém, para que isso aconteça, os indivíduos, as empresas e os governos terão de actuar já: até um atraso de uma década é demasiado. Os dados credíveis indicam que o mundo poderá ter de enfrentar o fim do petróleo barato algures até 2010. Os poucos anos de que dispomos até o petróleo começar a escassear são cruciais para concretizar a transição para uma economia livre de carbono, pois é nesse período que podemos, com mais facilidade e menos custos, construir a nova infra-estrutura e desenvolver as tecnologias.


Neste momento, as pessoas nos piores lugares são os directores-gerais das grandes empresas de energia. Alguns parecem desejar que as alterações climáticas desapareçam pura e simplesmente, pelo menos até se reformarem. Os piores estão a pressionar agressivamente no sentido de se construírem mais centrais energéticas movidas a carvão, e a sua influência não deve ser subestimada: até na Nova Gales do Sul, cujo chefe de Governo é um bem conhecido ambientalista e que está a sofrer a pior seca de que há registo, eles parecem decididos a construir novas centrais geradoras movidas a carvão. Apesar de as centrais existentes utilizarem o equivalente a um quinto da água consumida pelos quatro milhões de habitantes de Sydney!


Independentemente das suas posições sobre alterações climáticas, todos os directores-gerais de empresas de energia têm algumas coisas em comum. São responsáveis perante a administração, os accionistas e os empregados, e podemos ter a certeza de que estão informados do desastre iminente; não podem alegar ignorância. Além disso, a reforma do mercado no sector da energia significa que todos são cada vez mais vulneráveis aos humores do mercado, motivo pelo qual são tão importantes as acções dos consumidores e dos investidores.


O dilema que os grandes consumidores de carvão enfrentam é difícil, mas não insolúvel. Tal como as grandes petrolíferas estão a passar para o gás, as grandes empresas de carvão deveriam estar a realizar uma qualquer transição. Pode parecer difícil argumentar neste sentido, quando os preços do carvão se mantêm nos valores mais elevados de sempre. Mas é isso que as petrolíferas fizeram e estão a fazer, por razões muito semelhantes: as limitações no abastecimento ou as dificuldades de se desfazerem dos resíduos indicam que nem o petróleo nem o carvão têm grande futuro. Então, que poderão fazer as grandes empresas de carvão?


Como a biomassa (combustível derivado de desperdícios das colheitas ou de outras matérias vegetais) não é mais que carvão jovem, afigurar-se-ia natural que elas investissem nesta nova tecnologia. O obscurecimento global indica que teremos de retirar CO2 da atmosfera para estabilizar o clima da Terra. Poderíamos fazê-lo queimando biomassa e sequestrando o CO2 obtido, o que, de certa maneira, compensa os prejuízos causados pela indústria no passado. As empresas de carvão precisariam de ajuda para realizar a transição para a biomassa, e os governos poderiam apoiá-las obrigando a que uma determinada percentagem do combustível utilizado fosse constituída por biocombustíveis.


Mas deveria a indústria afastar-se de todo esse carvão existente nas minas e em reservas por explorar? Arthur C. Clarke compreendeu que as reservas de carvão da Terra representam uma ferramenta poderosa da caixa de ferramentas que permite fazer a manutenção do planeta. Sabia que os ciclos de Milankovich não tinham desaparecido e que, desde que o clima da Terra não transitasse, de repente, para um novo estado ultraquente, dentro de uns milénios o nosso planeta enfrentará um arrefecimento que anunciará uma nova era glacial. Que fará então a humanidade?


Se os governos do mundo proibissem novas explorações e comprassem todas as reservas de carvão existentes, o carvão que hoje é nosso inimigo poderia tornar-se uma ferramenta poderosa que nos protegeria do aparecimento do gelo. O Fundo Arthur C. Clarke destinado a evitar uma nova era glacial poderia integrar-se no Protocolo de Quioto, e as nações do mundo poderiam contribuir para a compra de carvão proporcionalmente à sua capacidade.


Existem muitas outras coisas que os governos poderiam fazer para apoiar os esforços tanto dos consumidores como das empresas, quer a nível local quer global. A mais importante é proibir a construção ou expansão de centrais energéticas tradicionais movidas a carvão, o que constituiria uma importante mensagem para o mercado no que toca ao rumo futuro da produção energética. Também deveria fazer parte das preocupações de todos os governos uma legislação adequada em matéria de eficiência energética, incluindo uma regulamentação rigorosa sobre a eficiência dos bens postos à venda, códigos de construção civil que estabelecessem um limite para as emissões a nível das habitações, normas que encorajassem a incorporação de dispositivos destinados a reduzir as emissões domésticas e a concepção de sistemas de transporte que tivessem em conta uma eficiência energética global. Seria igualmente importante acabar com os subsídios indirectos: os grandes consumidores de energia nunca sentirão todo o impacto dos preços — e, por conseguinte, nunca encararão com seriedade a questão da eficiência — enquanto nós, consumidores domésticos, pagarmos grande parte da conta de electricidade deles.


Também são importantes iniciativas destinadas a encorajar a utilização de energias renováveis, como, por exemplo, dizer aos fornecedores que uma parte da energia que distribuem deve provir de fontes renováveis, descontos na compra de células fotovoltaicas, apoio na instalação de equipamento que favoreça as fontes renováveis e legislação que facilite a introdução de energias renováveis, como a energia eólica. São meros exemplos do que pode ser feito, e é provável que os governos já estejam a tomar uma ou outra iniciativa deste tipo (para uma lista mais pormenorizada, consultar as acções propostas pela International Climate Change Task Force).


A longo prazo, existe uma forma democrática, transparente e simples de acordo internacional que poderá vir a substituir Quioto. Conhecida pelo nome de C&C (Contracção e Convergência), tem vindo a ser defendida há mais de uma década pelo político inglês Aubrey Meyer.


Em alguns aspectos, a C&C é uma variante ultrademocrática do Protocolo de Quioto, pois assenta na ideia simples de que a única maneira justa de reduzir as emissões é conceder a cada ser humano um direito, igual para todos, «de poluir» com gases de estufa. À semelhança de Quioto, esse direito poderia ser transaccionado, embora, ao abrigo da C&C, o volume de transacções fosse provavelmente muito maior. Para compreender porquê, vejamos o exemplo dos Americanos.


Os Americanos emitem três vezes mais CO2 por pessoa e por ano do que os Europeus, e centenas de vezes mais do que os cidadãos dos países menos desenvolvidos. Ao abrigo da C&C, os cidadãos dos países desenvolvidos teriam de comprar, aos pobres de todo o mundo, créditos de carbono suficientes para cobrir as suas emissões. A transacção far-se-ia país a país (e não indivíduo a indivíduo) e representaria uma enorme transferência de riqueza. Uma situação destas representa um enorme incentivo à redução de emissões, pois forçaria a convergência das emissões de CO2 de todos os cidadãos, independentemente da sua riqueza. Como o nível para o qual convergiriam seria muito inferior ao actual, a situação também se traduziria numa grande diminuição no total das emissões.


Na perspectiva de Meyer, são três os passos iniciais da C&C:


1) Estabelecer um acordo internacional quanto ao limite máximo para as concentrações de CO2 na atmosfera.


2) Calcular o ritmo a que as emissões devem ser reduzidas até se atingir esse objectivo.


3) Calcular o «orçamento de carbono» total tendo em conta os dois primeiros passos e dividi-lo pela população mundial numa base per capita.


A semelhança de Quioto, este processo exigiria a criação de uma «divisa-carbono» a que Meyer chama Ebcus, cuja pré-distribuição poderia ser usada para financiar tecnologias limpas e liquidar dívidas internacionais. Não há motivos que impeçam o Protocolo de Quioto de vir a adoptar algures no futuro as principais inovações da C&C. Com efeito, Meyer afirma que alguns dos subscritores de Quioto aprovam o seu modelo.


A C&C é muito mais radical que o Protocolo de Quioto. Constitui um medicamento poderoso para uma enfermidade terrível e, como todos os tratamentos desse tipo, pode ter efeitos secundários. O sistema pode, por exemplo, acabar com a pobreza mundial e com a divisão entre o Norte e o Sul. Nem todos os aspectos da proposta deverão desagradar aos conservadores, pois, ao incluir todos os seres humanos, dissipa completamente as preocupações com os «penduras» no mundo em desenvolvimento.


Entre os seus aspectos potencialmente negativos figura o custo inicial para os países industrializados. Por outro lado, alguns países em desenvolvimento poderão confundir o tamanho da população com a transferência de riqueza, escusando-se, por conseguinte, a tomar disposições em matéria de planeamento familiar. Contudo, nenhum plano é isento de defeitos, e este, pelo menos, foi apresentado e tem recebido algum apoio.

Algumas pessoas poderão distinguir intenções ocultas na C&C, facto que poderá constituir uma grande armadilha no caminho para a estabilidade climática — a tendência por parte de alguns grupos de atrelarem a sua ideologia aos esforços em prol da sustentabilidade. O grupo que defende a energia nuclear já está a fazê-lo, tal como o grupo «menos é mais», que considera que a humanidade deve reduzir globalmente o consumo se pretende alcançar a sustentabilidade. Os dois grupos têm os seus méritos, mas provêm de uma base ideológica que pode afastar muitas pessoas cujos contributos são indispensáveis para ganhar a batalha contra as alterações climáticas. Perante uma emergência grave, é melhor concentrarmos todos os esforços.
Há ainda dois aspectos para os quais importa chamar a atenção. O pior que os cidadãos do mundo desenvolvido podem fazer é ficar à espera de que se aprove um plano do tipo da C&C. É agora que é preciso actuar, e a única coisa que cada um de nós pode fazer é reduzir as próprias emissões e fazê-lo o mais depressa possível.


Por último, é pouco provável que os governos façam alguma coisa se as pessoas não o exigirem. Para fortalecer a determinação dos governos em matéria de alterações climáticas, os cidadãos devem dar prioridade a esse assunto quando chega a altura de votar. Como afirmou Alfred Russel Wallace há um século: «Não voteis em ninguém que diga "não é possível fazê-lo". Votai apenas nas pessoas que declaram "Far-se-á".» E não se limite a perguntar aos políticos qual a posição deles. Pergunte-lhes o que estão a fazer, pessoalmente, para reduzir as suas próprias emissões.

 

 

 

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