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Para além do fim
Tal como os Norns em O Anel do Nibelungo de Wagner, estamos perto do fim
da primeira dentição e a corda, cuja oscilação define o nosso destino,
está prestes a romper-se.
Gaia, a Terra viva, está velha e já não tão forte como era há dois mil
milhões de anos. Luta para manter a Terra suficientemente fria para a sua
miríade de formas de vida, contra o aumento inelutável do calor do sol.
Mas, para juntar às suas dificuldades, uma dessas formas de vida, os
humanos, animais tribais conflituosos com sonhos de conquista até de
outros planetas, tentaram mandar na Terra só para benefício próprio. Com
uma insolência de tirar o fôlego, apossaram-se dos reservatórios de
carbono que Gaia enterrou para manter o oxigénio a um nível correcto, e
queimaram-nos. Ao fazê-lo, usurparam a autoridade de Gaia e contrariaram a
sua obrigação de manter o planeta apto para a vida; pensaram apenas no seu
próprio conforto e conveniência.
(...)
Não sou um pessimista e sempre imaginei que, no final, o bem prevaleceria.
Quando o nosso astrónomo real, Sir Martin Rees, agora presidente da Royal
Society, publicou em 2004 o seu livro Our Final Century, ousou pensar e
escrever sobre o fim da civilização e da raça humana. Apreciei-o como uma
boa leitura, cheia de sabedoria, mas tomei-a apenas como uma especulação
entre amigos e nada que me tirasse o sono.
Estava tão errado; o livro era presciente porque as provas que nos chegam
agora de observadores de todo o mundo trazem novidades sobre um desvio
iminente do nosso clima em direcção ao que podia ser facilmente descrito
como Inferno: tão quente, tão mortal que só uma mão-cheia da multidão dos
milhares de milhões que estão agora vivos irá sobreviver. Fizemos do
planeta um caos surpreendente e, acima de tudo, com boas intenções,
liberais e excessivas. Mesmo agora, quando o sino já começou a tocar para
anunciar o nosso fim, ainda falamos de desenvolvimento sustentável e de
energias renováveis como se estas fracas oferendas fossem aceites por Gaia
como um sacrifício apropriado e viável economicamente. Somos como um
membro da família, irresponsável e inconsciente, cuja presença é
destrutiva e que julga que uma desculpa é suficiente.
(...)
Tantas vezes, quando o desastre nos visita, ainda choramingamos «Como é
que Deus deixou que isto acontecesse?» E agora que existe uma
probabilidade de a maioria de nós perecer, poderá continuar a crença em
Deus? Darwin descreveu uma vez o processo evolutivo como sendo
«desajeitado, gastador, disparatado, baixo e horrivelmente cruel». Mas
certamente não tão cruel ou tão culpado como fomos, e ainda somos, pelo
resto da vida na Terra; especialmente uma vez que tantas outras espécies
inocentes partilham do nosso destino.
Seria fácil pensar em nós e nas nossas famílias como estando encarceradas
numa cela condenada, do tamanho do mundo — um corredor da morte cósmico —,
esperando a execução final. Os dias e os anos irão passar, as estações
seguir-se-ão e seremos alimentados e entretidos, e, se tivermos fé,
pediremos a Deus um adiamento da pena. Alguns, como a Sandy e eu, iremos
provavelmente enganar o carrasco e morrer antes de a nossa hora chegar; as
consequências cruéis ficarão para os nossos filhos e netos.
Sou um cientista e penso em termos de probabilidades, e não certezas,
portanto, sou um agnóstico. Mas existe uma profunda necessidade em todos
nós de confiarmos em algo maior e eu deposito em Gaia a minha confiança e
declarei-o na minha autobiografia, Homage to Gaia, em 2000. Será
que um voto de confiança já foi alguma vez tão severamente posto à prova?
Como frequentemente acontece em crises menos graves, procuro o meu amigo e
mentor, Sir Crispin Tickell, e aconteceu que ele tinha uma resposta sob a
forma de uma palestra dada anteriormente numa conferência sobre «A Terra,
Nosso Destino», na catedral de Portsmouth, em 2002. Foi uma observação
profundamente comovente, sábia e útil sobre o nosso lugar no ambiente. Os
últimos parágrafos do texto eram:
A ideologia da sociedade industrial, dirigida por noções sobre
crescimento económico, padrões de vida cada vez mais elevados e fé na
solução tecnológica, não funcionará a longo prazo. Ao mudarmos as nossas
ideias, temos de olhar em frente, em direcção a um objectivo final de uma
sociedade humana na qual a população, a utilização de recursos, o
tratamento de lixo e ambiente estão geralmente em saudável equilíbrio.
Acima de tudo, temos de ver a vida com
respeito c admiração. Precisamos de um sistema ético no qual o mundo
natural tenha valor não só para o bem-estar humano, mas para si e em si
mesmo. O universo é algo interno, mas também externo.
Concluiu com as palavras da abadessa Hildegard de Bingen, do século
XII, que escreveu sobre Deus:
... Eu acendo a beleza das planícies,
Faço brilhar as águas,
Queimo-me ao sol, à lua e à luz das estrelas... Adorno tudo na Terra,
Sou a brisa que alimenta todas as coisas verdes...
Sou a chuva que vem do orvalho e que
leva as ervas
A rirem com a alegria da vida.
Alegremo-nos nós também.
(...)
Os economistas e os políticos têm de
enquadrar a absoluta necessidade de uma paragem rápida e controlada das
emissões da queima de combustível fóssil nas necessidades humanas da
civilização. O crescimento económico é uma droga para o corpo político tal
como a heroína para alguns de nós; talvez tenhamos de vigiar o abstinente
usando um substituto mais seguro, a metadona de um economista.
(...)
Até há bem pouco tempo, apesar de muitos de nós estarem cientes de que
podia acontecer uma alteração ambiental séria e acreditarem nas previsões
do IPCC, de algum modo, o nosso conhecimento parecia teórico e académico,
sem indicar que algo mortal estava iminente. Foi um pequeno acontecimento
que me acordou para estes perigos. O medo cristalizou-se como agulhas
aguçadas nos espaços super-saturados do meu cérebro quando, em Outubro de
2003, os meus vizinhos das proximidades, Christine e Peter Hadden, me
contaram que havia planos para erigir turbinas de vento gigantes no campo,
perto das nossas casas.
(...)
Converter boas zonas rurais em
parques industriais para produção de energia eólica, apenas como um gesto
para provarmos as suas credenciais ambientais, mostrou quão longe estavam
os nossos líderes de perceberem o perigo. Para manter confortáveis os seus
enclaves urbanos, devastariam pelo desenvolvimento industrial as áreas
remanescentes das boas zonas rurais.
(...)
Está então a nossa civilização condenada e irá este século determinar o
seu fim com um declínio maciço da população, deixando uns poucos
sobreviventes empobrecidos numa sociedade tórrida regida por senhores da
guerra num planeta hostil e incapacitado?
(...)
O que deveria então fazer agora um governo
europeu sensato? Penso que temos poucas opções a não ser prepararmo-nos
para o pior e assumir que já ultrapassámos o limite. Tal como os
paramédicos, a sua primeira prioridade é manter o doente, a civilização,
viva durante a caminhada para um mundo que, pelo menos, já não esteja a
sofrer uma alteração rápida. Estamos a enfrentar um calor desenfreado e
vamos sentir as suas consequências no prazo de apenas algumas décadas.
Devíamos estar agora a preparar-nos para uma subida do nível do mar,
períodos de um calor quase intolerável como o da Europa Central, em 2003,
e para tempestades de uma severidade sem precedentes. Devíamos também
estar preparados para surpresas, acontecimentos mortais, locais ou
regionais, que são completamente imprevisíveis. A necessidade imediata é
de fontes de energia seguras para manter acesas as luzes da civilização e
para preparar as nossas defesas contra a subida do nível do mar.
(...)
De muitas maneiras, estamos inconscientemente em guerra com Gaia e, para
sobrevivermos com a nossa civilização incólume, precisamos urgentemente de
fazer as pazes com Gaia enquanto ainda somos suficientemente fortes para
negociar e não uma turba alquebrada e desfeiteada, a caminho da extinção.
Poderão as democracias actuais, com os seus barulhentos meios de
comunicação e lóbis de interesses especiais, agir de forma suficientemente
rápida para uma defesa eficaz contra Gaia?
(...)
Globalmente, as agências do clima da União Europeia têm tido um desempenho
magnífico, como comprova o IPCC. Mas à medida que o clima piora, cada
nação por si necessitará cada vez mais de responder localmente aos
desastres, à medida que acontecem. De certo modo, a grande festa do século
XX, com os seus gastos extravagantes e os seus jogos de guerra, acabou.
Agora é tempo de lavar os pratos e deitar fora os restos.
(...)
Se, na realidade, já tivermos passado o limiar do aquecimento
irreversível, então talvez devêssemos escutar os ecologistas verdadeiros e
deixá-los serem os nossos guias. Um deles, que conheço bem como amigo, é o
biólogo Stephan Harding e estou em dívida para com ele por me ter dado a
conhecer a verdadeira ecologia. Este pequeno grupo de verdadeiros
ecologistas parece aperceber-se, mais do que outros pensadores verdes, da
magnitude da mudança de mentalidade necessária para nos trazer de volta à
paz no seio de Gaia, a Terra viva. Tal como os santos e santas que fizeram
das suas vidas um testamento da sua fé, os verdadeiros ecologistas tentam
viver como um exemplo de Gaia a seguir por todos nós.
(...)
Temos alimentos e abrigos necessários
quando cidades como Londres, Calcutá, Miami e Roterdão se tornarem
inabitáveis?
(...)
Não podemos olhar para o futuro do mundo civilizado da mesma forma que
vemos os nossos futuros pessoais. É negligência cavalgar a nossa própria
morte. É irresponsável pensar no fim da civilização da mesma maneira.
Mesmo que seja provável um futuro intolerável, ainda é imprudente ignorar
a possibilidade de um desastre.
(...)
Entretanto, no mundo quente e árido, os sobreviventes juntam-se na viagem
em direcção aos novos centros árcticos da civilização; vejo-os no deserto
assim que desponta a aurora e o sol lança o seu halo penetrante através do
horizonte, no acampamento. O ar fresco da noite sopra durante algum tempo
e, depois, tal como o fumo, dissipa-se à medida que o calor se instala. O
camelo-fêmea desperta, pestaneja e, lentamente, levanta-se sobre os
quadris. Os poucos membros que restam da tribo montam-se nela. Ela arrota
e parte para a viagem longa e insuportavelmente quente até ao próximo
oásis.
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