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Porque está a Terra a retaliar - e como

ainda podemos salvar a Humanidade

 

Tradução de Cecília Antão da Silva

http://www.gradiva.pt/

http://www.ecolo.org/lovelock/

 


Índice
Agradecimentos 9
Prefácio de Sir Crispin Tickell 11
1. O estado da Terra 15
2. O que é Gaia? 33
3. A história da vida de Gaia 65
4. Previsões para o século XXI 77
5. As fontes de energia 101
6. Químicos, alimentos e matérias-primas 153
7. Tecnologia para um retrocesso sustentável 181
8. Um ponto de vista pessoal do ambientalismo 191
9. Para além do fim 205
Glossário 225
Sugestões de leitura 233
Índice remissivo 237


 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Para além do fim


Tal como os Norns em O Anel do Nibelungo de Wagner, estamos perto do fim da primeira dentição e a corda, cuja oscilação define o nosso destino, está prestes a romper-se.

 

 


Gaia, a Terra viva, está velha e já não tão forte como era há dois mil milhões de anos. Luta para manter a Terra suficientemente fria para a sua miríade de formas de vida, contra o aumento inelutável do calor do sol. Mas, para juntar às suas dificuldades, uma dessas formas de vida, os humanos, animais tribais conflituosos com sonhos de conquista até de outros planetas, tentaram mandar na Terra só para benefício próprio. Com uma insolência de tirar o fôlego, apossaram-se dos reservatórios de carbono que Gaia enterrou para manter o oxigénio a um nível correcto, e queimaram-nos. Ao fazê-lo, usurparam a autoridade de Gaia e contrariaram a sua obrigação de manter o planeta apto para a vida; pensaram apenas no seu próprio conforto e conveniência.

 

 

(...)

 


Não sou um pessimista e sempre imaginei que, no final, o bem prevaleceria. Quando o nosso astrónomo real, Sir Martin Rees, agora presidente da Royal Society, publicou em 2004 o seu livro Our Final Century, ousou pensar e escrever sobre o fim da civilização e da raça humana. Apreciei-o como uma boa leitura, cheia de sabedoria, mas tomei-a apenas como uma especulação entre amigos e nada que me tirasse o sono.

 

 


Estava tão errado; o livro era presciente porque as provas que nos chegam agora de observadores de todo o mundo trazem novidades sobre um desvio iminente do nosso clima em direcção ao que podia ser facilmente descrito como Inferno: tão quente, tão mortal que só uma mão-cheia da multidão dos milhares de milhões que estão agora vivos irá sobreviver. Fizemos do planeta um caos surpreendente e, acima de tudo, com boas intenções, liberais e excessivas. Mesmo agora, quando o sino já começou a tocar para anunciar o nosso fim, ainda falamos de desenvolvimento sustentável e de energias renováveis como se estas fracas oferendas fossem aceites por Gaia como um sacrifício apropriado e viável economicamente. Somos como um membro da família, irresponsável e inconsciente, cuja presença é destrutiva e que julga que uma desculpa é suficiente.

 

 

(...)

 

 

Tantas vezes, quando o desastre nos visita, ainda choramingamos «Como é que Deus deixou que isto acontecesse?» E agora que existe uma probabilidade de a maioria de nós perecer, poderá continuar a crença em Deus? Darwin descreveu uma vez o processo evolutivo como sendo «desajeitado, gastador, disparatado, baixo e horrivelmente cruel». Mas certamente não tão cruel ou tão culpado como fomos, e ainda somos, pelo resto da vida na Terra; especialmente uma vez que tantas outras espécies inocentes partilham do nosso destino.

 

 


Seria fácil pensar em nós e nas nossas famílias como estando encarceradas numa cela condenada, do tamanho do mundo — um corredor da morte cósmico —, esperando a execução final. Os dias e os anos irão passar, as estações seguir-se-ão e seremos alimentados e entretidos, e, se tivermos fé, pediremos a Deus um adiamento da pena. Alguns, como a Sandy e eu, iremos provavelmente enganar o carrasco e morrer antes de a nossa hora chegar; as consequências cruéis ficarão para os nossos filhos e netos.

 

 


Sou um cientista e penso em termos de probabilidades, e não certezas, portanto, sou um agnóstico. Mas existe uma profunda necessidade em todos nós de confiarmos em algo maior e eu deposito em Gaia a minha confiança e declarei-o na minha autobiografia, Homage to Gaia, em 2000. Será que um voto de confiança já foi alguma vez tão severamente posto à prova?

 

 


Como frequentemente acontece em crises menos graves, procuro o meu amigo e mentor, Sir Crispin Tickell, e aconteceu que ele tinha uma resposta sob a forma de uma palestra dada anteriormente numa conferência sobre «A Terra, Nosso Destino», na catedral de Portsmouth, em 2002. Foi uma observação profundamente comovente, sábia e útil sobre o nosso lugar no ambiente. Os últimos parágrafos do texto eram:

 

 


A ideologia da sociedade industrial, dirigida por noções sobre crescimento económico, padrões de vida cada vez mais elevados e fé na solução tecnológica, não funcionará a longo prazo. Ao mudarmos as nossas ideias, temos de olhar em frente, em direcção a um objectivo final de uma sociedade humana na qual a população, a utilização de recursos, o tratamento de lixo e ambiente estão geralmente em saudável equilíbrio.

 

Acima de tudo, temos de ver a vida com respeito c admiração. Precisamos de um sistema ético no qual o mundo natural tenha valor não só para o bem-estar humano, mas para si e em si mesmo. O universo é algo interno, mas também externo.

 

 


Concluiu com as palavras da abadessa Hildegard de Bingen, do século XII, que escreveu sobre Deus:


... Eu acendo a beleza das planícies,

Faço brilhar as águas,
Queimo-me ao sol, à lua e à luz das estrelas... Adorno tudo na Terra,
Sou a brisa que alimenta todas as coisas verdes...

Sou a chuva que vem do orvalho e que leva as ervas

A rirem com a alegria da vida.


Alegremo-nos nós também.
 

 

(...)

 

 

Os economistas e os políticos têm de enquadrar a absoluta necessidade de uma paragem rápida e controlada das emissões da queima de combustível fóssil nas necessidades humanas da civilização. O crescimento económico é uma droga para o corpo político tal como a heroína para alguns de nós; talvez tenhamos de vigiar o abstinente usando um substituto mais seguro, a metadona de um economista.

 

 

(...)

 


Até há bem pouco tempo, apesar de muitos de nós estarem cientes de que podia acontecer uma alteração ambiental séria e acreditarem nas previsões do IPCC, de algum modo, o nosso conhecimento parecia teórico e académico, sem indicar que algo mortal estava iminente. Foi um pequeno acontecimento que me acordou para estes perigos. O medo cristalizou-se como agulhas aguçadas nos espaços super-saturados do meu cérebro quando, em Outubro de 2003, os meus vizinhos das proximidades, Christine e Peter Hadden, me contaram que havia planos para erigir turbinas de vento gigantes no campo, perto das nossas casas.

 

 

 

(...)

 

 

 

 Converter boas zonas rurais em parques industriais para produção de energia eólica, apenas como um gesto para provarmos as suas credenciais ambientais, mostrou quão longe estavam os nossos líderes de perceberem o perigo. Para manter confortáveis os seus enclaves urbanos, devastariam pelo desenvolvimento industrial as áreas remanescentes das boas zonas rurais.

 

 

(...)

 

 


Está então a nossa civilização condenada e irá este século determinar o seu fim com um declínio maciço da população, deixando uns poucos sobreviventes empobrecidos numa sociedade tórrida regida por senhores da guerra num planeta hostil e incapacitado?

 

 

(...)

 

 

O que deveria então fazer agora um governo europeu sensato? Penso que temos poucas opções a não ser prepararmo-nos para o pior e assumir que já ultrapassámos o limite. Tal como os paramédicos, a sua primeira prioridade é manter o doente, a civilização, viva durante a caminhada para um mundo que, pelo menos, já não esteja a sofrer uma alteração rápida. Estamos a enfrentar um calor desenfreado e vamos sentir as suas consequências no prazo de apenas algumas décadas. Devíamos estar agora a preparar-nos para uma subida do nível do mar, períodos de um calor quase intolerável como o da Europa Central, em 2003, e para tempestades de uma severidade sem precedentes. Devíamos também estar preparados para surpresas, acontecimentos mortais, locais ou regionais, que são completamente imprevisíveis. A necessidade imediata é de fontes de energia seguras para manter acesas as luzes da civilização e para preparar as nossas defesas contra a subida do nível do mar.

 

 

(...)

 


De muitas maneiras, estamos inconscientemente em guerra com Gaia e, para sobrevivermos com a nossa civilização incólume, precisamos urgentemente de fazer as pazes com Gaia enquanto ainda somos suficientemente fortes para negociar e não uma turba alquebrada e desfeiteada, a caminho da extinção. Poderão as democracias actuais, com os seus barulhentos meios de comunicação e lóbis de interesses especiais, agir de forma suficientemente rápida para uma defesa eficaz contra Gaia?

 

 

(...)

 

 

Globalmente, as agências do clima da União Europeia têm tido um desempenho magnífico, como comprova o IPCC. Mas à medida que o clima piora, cada nação por si necessitará cada vez mais de responder localmente aos desastres, à medida que acontecem. De certo modo, a grande festa do século XX, com os seus gastos extravagantes e os seus jogos de guerra, acabou. Agora é tempo de lavar os pratos e deitar fora os restos.

 

 

(...)

 


Se, na realidade, já tivermos passado o limiar do aquecimento irreversível, então talvez devêssemos escutar os ecologistas verdadeiros e deixá-los serem os nossos guias. Um deles, que conheço bem como amigo, é o biólogo Stephan Harding e estou em dívida para com ele por me ter dado a conhecer a verdadeira ecologia. Este pequeno grupo de verdadeiros ecologistas parece aperceber-se, mais do que outros pensadores verdes, da magnitude da mudança de mentalidade necessária para nos trazer de volta à paz no seio de Gaia, a Terra viva. Tal como os santos e santas que fizeram das suas vidas um testamento da sua fé, os verdadeiros ecologistas tentam viver como um exemplo de Gaia a seguir por todos nós.

 

 

(...)

 

 

Temos alimentos e abrigos necessários quando cidades como Londres, Calcutá, Miami e Roterdão se tornarem inabitáveis?

 

 

(...)

 


Não podemos olhar para o futuro do mundo civilizado da mesma forma que vemos os nossos futuros pessoais. É negligência cavalgar a nossa própria morte. É irresponsável pensar no fim da civilização da mesma maneira. Mesmo que seja provável um futuro intolerável, ainda é imprudente ignorar a possibilidade de um desastre.

 

 

(...)

 


Entretanto, no mundo quente e árido, os sobreviventes juntam-se na viagem em direcção aos novos centros árcticos da civilização; vejo-os no deserto assim que desponta a aurora e o sol lança o seu halo penetrante através do horizonte, no acampamento. O ar fresco da noite sopra durante algum tempo e, depois, tal como o fumo, dissipa-se à medida que o calor se instala. O camelo-fêmea desperta, pestaneja e, lentamente, levanta-se sobre os quadris. Os poucos membros que restam da tribo montam-se nela. Ela arrota e parte para a viagem longa e insuportavelmente quente até ao próximo oásis.

 

 

 

 


 

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